domingo, 18 de agosto de 2013

A Expressão de Robert Schumann (parte2/4)

Trechos do Livro CLARA SCHUMANN, la vie à quatre mains, Catherine Lépront, tradução Eduardo Brandão.

Opus 7, Toccata, Robert Schumann

[...] o que ele (Wieck) sabia de Schumann [...] o tornava inquietante. ‘Por sua maneira de se comportar’, ‘ele era bem diferente do que mostra em suas composições: nestas, ele se expressa em toda a plenitude de sua alma cheia de numerosas emoções, enquanto em sua vida seu elemento próprio era o silêncio. A íntima e violenta emotividade de Robert, seu mutismo, aquela distorção sobretudo entre interior e a aparência, e a ‘inquietante estranheza’ que daí emanava, tudo isso não podia deixar de perturbar Wieck [...] ciumento como pai (de Clara Schumann) [...] tinha diante de si um rival de uma candura e de uma ternura infinitas.

Robert comportou-se muito bem, com a sua calma costumeira. Aliás, era o que ele melhor podia opor à semelhante explosão (do pai de Clara, no Tribunal).

Liszt [...] acamou-se doente, Mendelssohn e Schumann vinham visitá-lo. Mendelssohn falava, Schumann calava.

Robert dizia de Richard Wagner: ‘Ele é impossível, fala sem parar.’ Richard dizia de Schumann; ‘Ele é impossível, não diz uma palavra; não é possível, afinal, falar sempre sozinho.’

[...] abandonava tudo e, onde quer que estivesse, fechava-se em si mesmo e voltava a seus ‘pensamentos musicais’.

O filho de Carl Maria Von Weber, que visitava Schumann com frequência em Dresden, contou que ele estava sempre [...] completamente absorto em seus pensamentos, parecia assobiar uma música para si mesmo, sem que ouvíssemos o menor som sair de seus lábios.

[...] dizia Schumann, ‘não posso me conter, gostaria de cantar como um rouxinol até morrer’.


Clara se espantava: ‘Parece-me estranho que os horrores lá de fora (na insurreição de Dresden) despertem em Robert sentimentos poéticos aparentemente tão opostos a isso tudo. Percorre esses lieder um sopro de pura serenidade. Tudo para mim volta a ser como na primavera, sorridente como as flores.’

(O violinista Josef) Joachim era muito inteligente, culto e tinha, desde há muito, uma admiração sem limites por Schumann. Não se incomodou nem com o mutismo, nem com as ausências do mestre, muito pelo contrário: ‘É mais que natural’, dizia ele ‘que entre a música perpétua de sua alma certos fatos à sua volta passem despercebidos – só podemos venerá-lo ainda mais por isso [...] Ele canta como a sua natureza lhe dita e tem a coragem de dizer a todos: ‘Não sei fazer de outro modo. ‘É também, o único a ter esse direito.’

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